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    “Fatia de uma vida” - Publicação: Professora Ivane Perotti da FaE/UEMG/CBH

    Onde faltam as palavras, e a música não vem!

    Por Luciano Mendes/Professor da UFMG e Escritor.

    Fatias de uma vida, o novo livro da Ivane Perroti, é uma porrada na boca do estômago! Me lembrou, no transcurso da leitura, o filme Onde os fracos não têm vez, dos irmãos Coen, com Javier Bardem em atuação magistral. Isso porque o livro de Ivane não é para quem tem estômago fraco não! E, nele, definitivamente vida não é um mar de delícias ou um jardim de rosas. Muito antes pelo contrário!

    Em cada página que a gente lê, lá estão as personagens e as situações que vivem a nos deslocar, cada vez mais, para o poço sem fundo que a gente vive; ou melhor, que a parcela mais pobre da população brasileira vive.

    O livro conta a história de João, cuja história é similar a milhares, quiçá milhões, de outros periféricos Joões de nossas metrópoles: mora no morro, não conheceu o pai, a mãe é alcoólatra, teve um irmão (traficante) morto e tem um irmão e uma irmã mais novos que dependem do seu trabalho. E isso tudo no alto dos seus.... quatorze anos!

    O abandono da escola por ele, mas não pelo casal mais novo, é um imperativo da busca pela sobrevivência. E a entrada no tráfico é o destino quase que natural, pois destino outro não há.

    Se há alguns a cidade é dada a conhecer pelos caminhos da escola, foi pelos caminhos do tráfico que João a conheceu, tendo por guia outro “João sem nome”. De um bairro a outro, de uma venda a outra, vai o menino aprendendo a se tornar anônimo na multidão. Esta experiência é característica dos “sem palavras” nas cidades modernas. Pelo olhar, pela cadência dos passos, vai-se habituando a não ser notado, ainda que às vezes, os olhos de águia da polícia teimem em localizar...negros e pobres. E aí...

    Sem palavras, João vai se educando nos códigos e nas linguagens do tráfico... e da cidade. A multidão caminha... e as vitrines prometem o que não podem entregar: uma guitarra à qual João não pode comprar. E, aqui, é impossível não evocar a passagem de Walter Benjamin quando comenta a violência absurda das cidades modernas em que um simples vidro, o da vitrine, atualiza continuamente a enorme distância das classes sociais, enquanto alimenta, ao mesmo tempo, novos e irrealizáveis desejos... de consumo, de cultura e de conforto.

    Some o pai, morre o irmão, falece a mãe, mas lá estão as crianças teimando em ir à escola. A merenda parece um atrativo para quem passa fome, mas não só. Mas esta é a única coisa que parece prometer um futuro melhor, não para João, que boa sorte não teve.

    Mas, penso, para fazer justiça ao livro da Ivane, que é preciso dizer que ele não pode ser lido apenas nesta toada. Lê-lo apenas assim é, mais uma vez, jogar João e todas as crianças e adolescentes negras e pobres mortos sem pudor e sem razão, na vala comum em que foram enterrados. Acompanhar a história de João, deste João criado e morto pela escrita da Ivane, é perceber também os modos pelos quais a literatura – e a arte de um modo geral – transfigura a realidade, sintetizando e deslocando histórias e vidas de populações inteiras.

    Na escrita de Ivane, e nos traços de Priscila de Paula, a gente vai acompanhando não histórias genéricas dos “Joões sem nome” que abundam pelo Brasil, mas os sentimentos, os pensamentos, a hesitações, os desejos, a memória e os sonhos de um menino que luta para ser gente – e gente grande, numa situação dramática e... mortal. Esse João traduz, para si e para nós, o mundo masculino, a violência da cidade, a falta de história e, num certo sentido, à luta pela memória. A respeito disso, muitas perguntas, respostas poucas, quase nenhuma.

    O texto da Ivane e os traços da Priscila tratam com arte e maestria o dramático do vivido. Guardadas, resguardada pelas vitrines e enterradas em valas comuns, a arte e a vida não se encontram. Lá onde faltam as palavras e a arte, a guitarra e a música nunca tocada, não oferece outras linguagens. Cessa também a vida. Vive-se. Morre-se. Há momentos em que a gente pensa e sente que a morte antecedeu a própria vida. E é nestes momentos que, mais do que nunca, é que precisamos de ar...te

     

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