DEFESA DE DISSERTAÇÃO
ISABELA SOLO DE ZALDIVAR RIBEIRO BORGES AGUIAR
Título: Corpo Manifesto: Arte Vestível, Feminismo e Poéticas de Resistência
Resumo: A presente dissertação, intitulada Corpo Manifesto: Arte Vestível, Feminismo e Poéticas de Resistência, investiga o corpo feminino como campo simbólico, político e estético, situando-o no centro de práticas artísticas que operam pela materialidade e pela performatividade da arte vestível. A pesquisa articula teoria e prática, mobilizando referências feministas, estudos do corpo, história da arte e metodologias da arte contemporânea para compreender de que modo o corpo — sobretudo o corpo da mulher — torna-se território de disputa e de criação poética.
Ao longo da pesquisa, assumo o corpo feminino como superfície histórica marcada por violências, restrições e expectativas normativas. Ele é moldado por forças sociais e simbólicas que delimitam seus movimentos, sua aparência e seu valor público. Nesse sentido, a arte vestível surge como ferramenta crítica: trata-se de uma prática que intervém diretamente nessa superfície, reorganizando seus códigos.
Através da costura, da modelagem e da fabricação manual, o trabalho se insere na tradição de práticas consideradas “domésticas” ou “femininas”, ressignificando-as enquanto gesto político. Costurar torna-se ato de afirmação, e a vestimenta, ampliada para além de sua função utilitária, configura-se como extensão performativa do corpo, como escudo, manifesto, rastro e provocação. Para compreender essa complexidade, a dissertação dialoga com artistas e pensadoras feministas que investigaram o corpo como dispositivo de poder.
Os estudos de Silvia Federici, bell hooks, Naomi Wolf e Angela Davis ajudam a estruturar a noção de corpo performativo e corpo político. No campo das artes visuais, referencia-se também a produção de artistas que utilizaram o corpo como suporte e resistência — como Lygia Pape, Zuzu Angel, Louise Bourgeois e Cecilia Vicuña— sublinhando que o corpo da mulher nunca é neutro: ele é sempre lido e interpretado, e por isso torna-se terreno fértil para disputas estéticas.
A dimensão feminista atravessa o trabalho tanto como postura quanto como estrutura epistemológica. Ao tratar da vestimenta como política, a pesquisa expõe como roupas foram — e ainda são — mobilizadas para culpar, vigiar, silenciar e controlar mulheres. A expressão estética que emerge dos objetos vestíveis aqui criados opera em sentido contrário: criar para desafiar, vestir para resistir, costurar para reivindicar. As obras não tematizam apenas opressões; elas se armam contra elas. Por isso, o corpo vestido funciona como corpo manifesto.
A dissertação também discute como essas poéticas se inscrevem no contemporâneo, especialmente em contextos de múltiplas violências contra mulheres. A aproximação com dados, gráficos e representações numéricas — incorporadas eventualmente em croquis ou processos visuais — evidencia que a violência, embora estatística, é profundamente corporal. Assim, o trabalho articula uma visão que une sensibilidade estética e criticidade social, reconhecendo que o corpo feminino é, simultaneamente, ferida histórica e potência coletiva.
No campo expandido das artes plásticas, essas poéticas se inserem entre escultura, vestuário, performance, fotografia e instalação. O corpo deixa de ser suporte para tornar-se interlocutor. A roupa deixa de ser ornamento para tornar-se linguagem. Esse trânsito entre meios reforça o caráter híbrido e indisciplinado da arte contemporânea, que desloca fronteiras e acolhe formas de produção antes marginalizadas, como a costura, bordado e modelagem. Aqui, essas técnicas se tornam força estética e crítica, reabilitando saberes historicamente deslegitimados por associações de gênero.
Por fim, a dissertação propõe compreender o corpo feminino como lugar de ação e insurgência. Ao vestir-se de obras, o corpo torna-se manifesto vivo, tensionando expectativas sociais e ampliando suas possibilidades de aparecer no mundo. A arte vestível, nesse caso, não apenas acompanha o corpo, ela o convoca a resistir. E a pesquisa prática desenvolvida nesta dissertação reafirma que, quando o corpo se torna arte e quando a arte se torna corpo, produz-se um espaço de crítica, invenção e liberdade.
Palavras-chave: Arte Vestível, Corpo Feminino, Feminismo.
COMISSÃO EXAMINADORA
Profa. Dra. Juliana Silveira Mafra (Orientadora/Presidente da Banca)
Profa. Dra. Maria Angélica Melendi (Piti) (Examinadora Externa)
Profa. Dra. Louise Marie Cardoso Ganz (Examinadora Externa)
Profa. Dra. Bárbara Ahouagi (Examinadora Suplente Externa)
11 DE MARÇO DE 2026, ÀS 15 HORAS PRESENCIALMENTE, NA SEDE DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARTES RUA PARAÍBA, Nº 232, BAIRRO SANTA EFIGÊNIA - BELO HORIZONTE/MG
