Compositor e instrumentista mineiro recebe título de Doutor Honoris Causa pela UEMG
Não se aparta a linhagem de sua realeza. Pois assim decretou o destino. Anos após um luminar Milton Nascimento ter recebido seu título de Doutor Honoris Causa pela UEMG em 2012, quis ele que essa Universidade continuasse a reconhecer a realeza dos integrantes do movimento cultural tão distinto da identidade mineira: o Clube da Esquina.
Desta vez, em 2026, a láurea repousou sobre as têmporas de Toninho Horta. E foi assim, ao ar livre, corpo livre, que os jardins do Palácio da Liberdade testemunharam a coroação de mais um membro de sua realeza musical.
A solenidade foi realizada no dia 30 de abril, às 15h, acompanhada por autoridades, convidados e pelo Conselho Universitário da UEMG (Conun), do qual partiu a outorga do título ao compositor e instrumentista.
A presidenta do Conun e reitora da UEMG, professora Lavínia Rosa Rodrigues, fundamentou a honraria e ressaltou a relevância musical de Toninho Horta não somente para a música produzida em Minas Gerais, mas como um passaporte que Minas apresenta quando quer se mostrar ao mundo.
"Toninho Horta é um dos maiores nomes da música brasileira e um símbolo da universalidade da cultura mineira. Sua obra atravessa fronteiras, dialoga com o mundo e, ao mesmo tempo, finca raízes profundas nesta terra. Conceder-lhe o título de Doutor Honoris Causa é um ato de reconhecimento da UEMG à grandeza de uma trajetória que orgulha Minas Gerais e o Brasil."
O homenageado, porém, não pôde estar presente à cerimônia. Toninho Horta retornava de Nova York, onde havia se apresentado, mas o voo de volta ao Brasil sofreu atraso, impossibilitando sua presença no Palácio da Liberdade. Ainda assim, o músico enviou uma mensagem em vídeo celebrando a homenagem e comentando a sensação de receber reconhecimento acadêmico pelo seu ofício.
"Eu fico muito emocionado com este reconhecimento. A música sempre foi minha vida, meu estudo, minha escola. Receber um título de doutor de uma universidade do meu estado, da minha Belo Horizonte, é algo que me toca profundamente. Agradeço à UEMG, à reitora Lavínia, a todos que tornaram isso possível. Minas está no meu coração e na minha música, sempre esteve."
Se o Conun foi responsável pela outorga do título, a sugestão e fundamentação do pedido de concessão da honraria partiu do Conselho Departamental da Escola de Música da UEMG. Na cerimônia, coube ao pró-reitor de extensão, professor Moacyr Laterza, discursar em nome da instituição e apresentar ao público a dimensão da obra de Toninho Horta.
Em sua fala, Laterza recorreu ao filósofo e musicólogo Theodor Adorno para situar a música de Toninho Horta no espectro mais exigente da escuta musical.
"Arrisco dizer que a música de Toninho Horta é um convite desafiador ao ouvinte mais treinado, pela riqueza de elementos que ela tem. A originalidade da sua harmonia traz elementos sempre novos, sempre surpreendentes. É uma harmonia que liberta a dissonância no seio do sistema tonal... que nos faz repensar e reelaborar o sentido da dissonância. Uma harmonia que possibilita caminhos próprios de uma construção melódica inconfundível, por vezes angulosa, às vezes complexa, mas sempre acessível."
O professor também destacou a capacidade de Toninho Horta de tocar simultaneamente a dimensão técnica e a emocional da música:
"A música de Toninho Horta faz isso também... E como faz! Para nós, que somos mineiros, sua música traz uma sensação de familiaridade que é inegável, mas que é difusa no nosso imaginário coletivo. Ela ecoa a sua origem mineira e faz pulsar o coração das Minas Gerais. Mas vai muito além disso: a sua originalidade, a sua inventividade, a sua riqueza fazem pulsar qualquer coração, independentemente de referências culturais ou geográficas."
Para encerrar, Laterza citou o violonista Fábio Zanon, cuja descrição da música de Toninho Horta foi recebida com aplausos:
"Toninho Horta faz uma música reconhecivelmente brasileira, mas que não é fundamentada nem no choro nem no samba. Usa instrumentos elétricos por influência do rock, mas não soa como rock. É forte em ritmos assimétricos, mas não é dançante. Sua harmonia é dissonante, mas não soa como Bossa Nova. Usa empréstimos modais, mas não é regionalista. Seus arranjos não são comentários à melodia, são ambientações experimentais, mas não soam vagos nem inacabados. Eu tenho um palpite: esta música foi batizada nas igrejas barrocas e tem a introspecção e a solenidade da música sacra mineira, mas os padrinhos foram os moçambiques e caiapós das minas africanas."
Fazendo referência a uma canção mineira muito conhecida, Laterza concluiu: a música de Toninho Horta é da América do Sul, é do ouro, é do mundo, é Minas Gerais.
E foi justamente da Escola de Música (EsMu) que chegou a homenagem na linguagem que Horta reconhece.
A audácia na simplicidade
Pois sua sensibilidade e sonoridade forjadas nesta terra de serras e minério, ainda que contasse com pouco estudo formal em violão e música, fez com que os olhos da academia se curvassem a seu talento, que traduz a realidade e o cotidiano do povo mineiro.
Em sua defesa sobre a concessão do título a Toninho Horta, o Conselho Departamental destacou, entre outros argumentos, o desenvolvimento de uma "técnica inovadora e complexa" de tocar o violão, além do interesse na formação musical de seu estilo ao ministrar e ser convidado para diversos cursos, seminários e workshops ao longo de sua carreira "para ensinar a sua técnica violonística e seus conhecimentos de harmonia".
O texto segue elencando sua carreira internacional e seu envolvimento com músicos renomados do jazz mundial, passando por suas diversas premiações recebidas, sendo a mais recente e proeminente o Grammy Latino, em 2020, no qual venceu a categoria "Melhor Álbum de Música Popular Brasileira", com o álbum Belo Horizonte.
"Atualmente, com a projeção nacional e internacional, a obra de Toninho Horta passou a ser estudada na academia, nos cursos de graduação e pós-graduação. Os aspectos abordados são diversos e passam pela performance, arranjos, composições, harmonizações, etc."
Panteão de homenageados
A solenidade realizada em abril fez de Toninho Horta a quarta pessoa a receber o título de Doutor Honoris Causa pela UEMG. Antes dele, dois professores e o já mencionado Milton Nascimento complementam o rol de reconhecimentos da Universidade.
Confira alguma das fotos do evento:
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Texto: Leonardo Araujo e Arthur do Vale (Ascom/UEMG) | Fotos: Amanda Gouvêa, Arthur do Vale, Letícia Gonzaga e Maria Luiza Teixeira (Ascom/UEMG)
