A exposição coletiva “O teor mineral: traço, fratura e decomposição” esteve em cartaz de 12 de junho a 22 de julho, na Galeria Principal do Espaço Cultural da Escola de Design da UEMG, movimentando o circuito artístico e acadêmico com uma proposta curatorial voltada às poéticas da matéria e às camadas que compõem o território.
Idealizada pela professora Thatiane Mendes em colaboração com Sarah Coeli e Bruno Duque, a mostra trouxe à tona reflexões sobre os minerais enquanto substâncias elementares — presentes tanto como matéria-prima da paisagem quanto como metáfora da memória, do tempo e da fratura. A proposta curatorial buscou tensionar o teor mineral como campo conceitual e sensível.
O corpo de artistas reuniu nomes como Raiany Costa, Rafael Fernandes, Ginna Jorge, A Tutu, Wel Soares, Henrique Detomi, Aline Moreno, Marlon de Paula, Leandro Gabriel, Ariel Ferreira, Ambuá, Morgana Mafra, Igor Reis e o duo: grão (Gabriela Sá + Ícaro Moreno), que apresentaram obras em diversos suportes, criando um campo expandido de escuta e ressonância entre corpo, território e matéria.
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Dentre os destaques, a professora Thatiane Mendes, também como artista expositora, apresentou em parceria com A Tutu a obra “Frankilina – Carta 1, 2025”, composta por crochês tingidos com minério de ferro, hastes de alumínio e gesso. O trabalho entrelaça o sensível ao industrial, propondo um corpo híbrido entre gesto, extração e afeto — matéria que pulsa entre memória e decomposição.
No período em que permaneceu em cartaz, a exposição promoveu uma série de bate-papos com os artistas, encontros que proporcionaram trocas profundas sobre os processos criativos, os temas abordados e os modos de escuta e produção. A mostra também integrou a programação do Noturno nos Museus, evento que ampliou a circulação e o alcance da exposição.
“O teor mineral” afirmou-se como um exercício curatorial sensível e potente, articulando o fazer artístico com reflexões contemporâneas sobre o território, os atravessamentos políticos e os resíduos da história. Um projeto que permanece reverberando — em fraturas, em camadas, em traços.
Enquanto a exposição esteve em cartaz, a professora Thatiane Mendes concedeu-nos uma entrevista exclusiva. Na conversa, compartilhou os caminhos conceituais que fundamentaram a curadoria, refletindo sobre a potência poética dos materiais e os atravessamentos entre arte, território e memória que moveram O teor mineral:
Em O Teor Mineral, matéria e linguagem se implicam. Como você compreende os materiais enquanto operadores de sentido, memória e gesto poético?
A partir da curadoria, assumimos o desafio de buscar entender o que são os minerais — não apenas em sua dimensão física, mas como operadores de subjetividades, desvelando suas várias possibilidades de interpretação. Em O Teor Mineral, matéria e linguagem se implicam. Cada obra, cada artista, apresenta muitas camadas subjetivas que ampliam o entendimento da matéria mineral para além da substância. (…)
Como artista, curadora, professora e pesquisadora, você percebe essas instâncias como coexistências harmônicas, intercaladas ou tensionadas em dissolução?
(…) acredito que são funções que se comunicam e, em certos momentos, se tencionam — e não é fácil. Mas é justamente nessas fricções que surgem as questões mais ricas. Tento acolher essas sobreposições sem diluí-las, permitindo que cada uma dessas instâncias atue em seu próprio ritmo.
Do impulso conceitual ao gesto curatorial, como se deu a travessia da ideia à forma? Quais os percalços, do campo logístico ao ético, que atravessaram esse processo?
A ideia curatorial — realizada em colaboração com Bruno Duque — nasceu do desejo de investigar os minerais não apenas como substância física, mas como matéria simbólica, sensível e de memória. (…) Do ponto de vista logístico, enfrentamos os desafios recorrentes de um projeto expositivo em um espaço público e tombado: negociação de cronogramas, adequação das obras ao mobiliário e às condições do local, entre outros ajustes. (…) No campo ético, nossa atenção esteve voltada para como apresentar essas materialidades de forma sensível — mas também crítica — considerando as urgências e realidades presentes nas pesquisas dos artistas.
O Casulo articula arte, ciência e sustentabilidade. Em que medida essa proposição reverbera nos princípios ético-estéticos de O Teor Mineral?
O Casulo é um grupo de pesquisa artística que articula práticas estéticas, saberes científicos e ecologias sensíveis. Possui projetos em desenvolvimento — e outros já realizados — com apoio da FAPEMIG e do CNPq. As pesquisas desenvolvidas pelo grupo dialogam com questões relacionadas à ciência, à arte e à ecologia. (…) A exposição convida o público a refletir sobre como nos conectamos com a terra, seus elementos e seus ciclos, abrindo um campo de pensamento político, ético e estético sobre essas relações. (…) O grupo Casulo integra o Centro de Estudos em Gemas e Joias, no Laboratório de Experimentações Vestíveis da Escola de Design. E estamos orientando nossas pesquisas justamente para estabelecer relações entre o corpo e as matérias que constituem o território em que habitamos.
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| Foto: professora, artista e curadora Thatiane Mendes / Fonte: Grupo Casulo |
Clique aqui e confira a íntegra da entrevista da professora Thatiane Mendes.
por Antonnione Leone (Ascom/ED UEMG) com edição de Arthur do Vale (Ascom/UEMG).

